19º Domingo do Tempo Comum – Ir. Carla Vasconcelos (Português)
Mateus 14:22-33
Os medos que nos paralisam… ou nos fazem caminhar
(Mt 14, 22-33)
Há uns dias atrás, uma de nossas irmãs me contou algo que me deixou perturbada: em
uma missa da qual ela participou, o padre afirmou, durante a homilia, que ter medo era pecado.
Isso mesmo: de forma genérica, sem contextualizar ou estabelecer diferenciações. Ao ler o
Evangelho deste domingo, me lembrei deste episódio e pensei comigo mesma: “tomara que ele
não diga isso novamente…”.
Este episódio aconteceu logo depois de eu ter acabado de comprar um livro cujo título é:
‘A virtude do medo”. Permitam-me a ironia, senti vontade de oferecê-lo ao padre, mas ainda
estou nas primeiras páginas, e quero lê-lo até o fim.
Obviamente, há uma grande diferença entre sentir medo diante de uma cobra e ter medo
de denunciar uma injustiça, porque isso acarretaria oposições. Parece claro que, no primeiro
caso, não há pecado. No segundo, porém, o medo poderia produzir o pecado da omissão.
Há algo mais do que mera confusão com o conceito de medo aqui. Eu ousaria dizer que
há uma teologia equivocada. Pensar que Deus exige de nós a supressão dos medos diante de
situações assustadoras beira à desumanização – e isso, vindo de um Deus que se fez humano…?
O próprio Jesus, no relato de Lucas (22, 44) sentiu um medo tão intenso que o fez suar sangue.
A despeito do que algumas lideranças religiosas podem pensar, é consenso no meio
científico de que o medo é um importante mecanismo biológico de defesa, que nos permite
detectar ameaças e reagir diante delas – lutando ou fugindo. Durante a pandemia do covid-19, o
medo fez com que a gente usasse máscaras e evitasse sair de casa desnecessariamente. Estas
e outras formas de proteção, como as vacinas, ajudam a salvar vidas. Quem se lança no perigo
sem analisá-lo e sem conhecer-se a si mesmo… pode sucumbir diante dele.
No Evangelho deste domingo, contemplamos dois momentos em que dois tipos de medo
ficaram evidentes: no primeiro, os discípulos ficaram com muito medo – apavorados – quando
viram Jesus se aproximando no meio de uma ventania que sacudia tudo. Acharam que Jesus
era um fantasma. Não estavam com medo de Jesus, mas do fantasma. Para algumas crenças,
fantasmas são espíritos de pessoas que já morreram; para a psicologia, podem ser projeções do
nosso cérebro, algo que não é real. O medo pode nos dominar de forma negativa quando, no
meio das contrariedades da vida, não enxergamos a presença de Deus e ficamos paralisados:
nos resignamos diante de uma realidade assustadora, porque seria muito arriscado nos
envolver… ou nos refugiamos no mundo virtual, onde podemos esquecer nossos medos
assistindo a uma infinidade de mercadorias e vidas perfeitas – ilusões que nos roubam do mundo
real, permeado de conflitos e desafios. A estes discípulos – a estas situações – Jesus diz: “Não
tenhais medo!”. Para este tipo de medo, não há possibilidade de negociação. Nossos pés
caminham num mundo real, e Jesus não nos permite renunciar à responsabilidade de agir neste
mundo – evitando os riscos, quando isto é possível; abraçando os riscos, quando isto é inevitável.
No segundo momento, Pedro se destaca dos demais discípulos, e pede a Jesus que o
ajude a chegar até ele. Mas, no meio do caminho, sente medo – não de Jesus, mas do vento. É
legítimo sentir medo de situações concretamente perigosas e, por isso, Jesus não condenou esta
emoção. Jesus condenou a dúvida que fez com que Pedro parasse de caminhar – “Homem fraco
na fé, por que duvidaste?” – e, parando de caminhar, ele afundou. Pedro começou a caminhar
em direção às ondas agitadas porque acreditou que Jesus estava presente naquele caos. Em
algum momento da caminhada, porém, a fé na presença de Jesus foi abalada. O mal lhe pareceu
grande demais e impossível de ser derrotado.
É bem possível que você – assim como eu – ao contemplar este mundo devorado pela
sede do poder e do dinheiro, pelas mentiras, guerras e mortes, pela destruição veloz da nossa
Casa Comum… sinta medo. O destino da humanidade parece estar sob o domínio de homens
maus; eles querem que pensemos que não há outras formas de viver e conviver. Nós sabemos
que isso não é verdade. Não podemos aceitar isto e parar de buscar alternativas. O segredo está
em manter a fé e caminhar no meio deste caos, lutando por justiça e paz ao lado do povo mais
sofrido e afetado por estes males. Que santa Teresa Benedita da Cruz nos inspire e anime com
a sua célebre frase: “Coragem é ir com medo” … e com a certeza de que Deus está conosco.
Conheça Irmã Carla Vasconcelos, SNDdeN
Irmã Carla Maria Souza de Vasconcelos nasceu em 25 de maio de 1975, na cidade do Rio de Janeiro, sudeste do Brasil. É a segunda filha de três irmãos, filha de mãe brasileira e pai português. Concluiu seus estudos escolares em 1991, e a graduação em Serviço Social em 1995. Após 1 ano atuando como bolsista de pesquisa na universidade, decidiu abraçar a Vida Religiosa, entrando para a Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, onde recebeu a formação inicial e fez os votos temporários e perpétuos. Em 2011, quando estava em missão no interior do Estado do Maranhão, conheceu pela primeira vez as Irmãs de Notre Dame de Namur, e ficou encantada com a missão inserida nas periferias e no meio do povo empobrecido. Após 1 ano de discernimento, iniciou uma nova experiência em Notre Dame, em 2014, e concluiu o processo de transferência em 2018. Atualmente, mora na cidade de Breves (Ilha do Marajó, Estado do Pará), junto com as irmãs Sandra e Lucyane, onde procura revelar a bondade de Deus nos ministérios: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Comissão Justiça e Paz (CJP), Pastoral Carcerária, Comissão Lux Mundi da Prelazia do Marajó, assessoria à Pastoral da Juventude e apoio às Comunidades Eclesiais na cidade e no interior dos rios marajoaras.