GLIMPSES do 18º Domingo – Irmã Carla Vasconcelos – Portugese

Lc 12,13-21

 

É interessante observar a frequência com que Jesus era interpelado por alguém do meio da multidão – ou de fora dela. Mesmo nas situações em que, num primeiro momento, ele parecia ignorar o chamado, logo depois oferecia sua atenção e resposta. E sempre respondia com sabedoria e autoridade. O objetivo era claro: suas falas e seus gestos cumpriam a missão de colocar sempre a vida em primeiro lugar. Portanto, Jesus não gastava tempo e energias com questões que tinham o poder de desviar a atenção deste bem maior, que é o cuidado com a vida, com as relações humanas, com o bem comum.

Isto posto, fica evidente porque Jesus se esquiva da interpelação narrada no Evangelho deste domingo. O problema apresentado não é a necessidade de curar um enfermo, de esclarecer um ensinamento, de expulsar um mal que castiga e subjuga alguém… O problema em questão é a partilha de uma herança. Embora se trate de uma situação injusta – um irmão não entregou ao outro a parte que lhe cabia –, Jesus se recusa a se envolver no conflito. É impressionante como as heranças materiais têm a capacidade de provocar brigas, processos judiciais e até mortes. Todas nós conhecemos inúmeras histórias tristes sobre famílias que se despedaçaram após a morte de um parente rico, brigando por um pedaço da herança: esse patrimônio que os sucessores, normalmente, não fizeram qualquer esforço para construir… e que beneficia a apenas um grupo seleto de escolhidos, mencionados em um testamento.

Definitivamente, as riquezas terrenas não eram o foco da missão de Jesus: ainda mais, riquezas disputadas entre poucos… Na verdade, Jesus tem um posicionamento muito firme em relação ao dinheiro, afirmado em Mateus (6,24) e Lucas (16, 13): “Nenhum servo pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. A mensagem é clara: trata-se de dois “Senhores”, que se opõem um ao outro. De um lado, Deus; do outro, o dinheiro, com seu poder de se tornar… “Deus”. Sim, precisamos dos bens materiais para viver. Logo, o problema não é ter os bens. O problema é adquiri-los de forma injusta e concentrá-los. Acumulados nas mãos de poucos, os “bens” viram “males”, viram… “riquezas” – que já não servem mais ao Deus revelado por Jesus.

Jesus não desperdiça oportunidades. Havia ali um problema de ganância que estava destruindo a amizade entre irmãos de sangue. Mesmo não aceitando mediar o conflito familiar, aproveita a situação para convidar à reflexão e, quem sabe, à mudança de vida. E tira de seu valioso repertório mais uma daquelas histórias que prendiam a atenção do povo e faziam as pessoas voltarem para casa refletindo e tirando conclusões para suas vidas.

A parábola é conhecida nossa: a do homem muito rico que não sabia o que fazer com tanta riqueza – e também não perguntou a opinião de ninguém sobre o que fazer com ela. Toda a história é descrita dentro de um ambiente solitário e egoísta. O homem não tem família e nem amigos – só tem riquezas mesmo. Sequer sabe agradecer a Deus pela generosidade da terra, que lhe deu o trigo, ou atribuir aos seus empregados o fato de ter enriquecido por causa do trabalho deles… Não passa pela cabeça do homem rico dividir o excedente que foi produzido por seus trabalhadores (qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência). Ele está disposto a gastar dinheiro com construções maiores, mas não está disposto a partilhar com quem tem menos do que ele. As frases a ele atribuídas são marcadas por um único pronome possessivo: “minha/meu(s)”. Até mesmo o seu descanso e a sua alegria são solitários. E toda a sua segurança é construída em cima das riquezas que acumulou.

Não raro, a ganância de ter muitas coisas disfarça uma necessidade muito humana e autêntica de segurança. Mas a segurança oferecida por uma conta bancária gorda, por uma liderança carismática, por uma relação afetiva estável ou por qualquer outro substituto semelhante tem destino certo: a frustração. Podemos escolher entre nos alegrar com menos, de forma menos consumista e partilhando fraternalmente o que temos e somos com todos, cuidando da nossa Casa Comum e respeitando os ritmos da natureza… ou podemos escolher ter muito e celebrar de forma solitária, fazendo seleção entre quem merece e quem não merece comida, oportunidade e amor. Jesus sempre partilhou o pão e a compaixão. Por isso, todas as nossas orações, cantos, adorações e celebrações religiosas devem andar junto com a luta evangélica por relações mais fraternas entre todos os seres, e pela justa partilha dos bens da terra!

 

Lc 12,13-21

Uno de los que estaban allí le dijo a Jesús:

—Maestro, ordénale a mi hermano que me dé la parte de la herencia que me dejó nuestro padre.

Jesús le respondió:

A mí no me corresponde resolver el pleito entre tu hermano y tú.

 Luego miró Jesús a los que estaban allí, y les dijo: «¡No vivan siempre con el deseo de tener más y más! No por ser dueños de muchas cosas se vive una vida larga y feliz.»

Y enseguida Jesús les puso este ejemplo:

«Las tierras de un hombre muy rico habían dado una gran cosecha.  Era tanto lo que se había recogido, que el rico no sabía dónde guardar los granos.  Pero después de pensarlo dijo: “Ya sé lo que haré. Destruiré mis viejos graneros, y mandaré a construir unos mucho más grandes. Allí guardaré lo que he cosechado y todo lo que tengo. 19 Después me diré: ¡Ya tienes suficiente para vivir muchos años! ¡Come, bebe, diviértete y disfruta de la vida lo más que puedas!”

 »Pero Dios le dijo: “¡Qué tonto eres! Esta misma noche vas a morir, y otros disfrutarán de todo esto que has guardado.”

»Así les pasa a todos los que amontonan riquezas para sí mismos. Se creen muy ricos pero, en realidad, ante Dios son pobres.»

 

Conheça a Irmã Carla Vasconcelos, SNDdeN

Irmã Carla Maria Souza de Vasconcelos nasceu em 25 de maio de 1975, na cidade do Rio de Janeiro, sudeste do Brasil. É a segunda filha de três irmãos, filha de mãe brasileira e pai português. Concluiu seus estudos escolares em 1991, e a graduação em Serviço Social em 1995. Após 1 ano atuando como bolsista de pesquisa na universidade, decidiu abraçar a Vida Religiosa, entrando para a Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, onde recebeu a formação inicial e fez os votos temporários e perpétuos. Em 2011, quando estava em missão no interior do Estado do Maranhão, conheceu pela primeira vez as Irmãs de Notre Dame de Namur, e ficou encantada com a missão inserida nas periferias e no meio do povo empobrecido. Após 1 ano de discernimento, iniciou uma nova experiência em Notre Dame, em 2014, e concluiu o processo de transferência em 2018. Atualmente, mora na cidade de Breves (Ilha do Marajó, Estado do Pará), junto com as irmãs Sandra e Lucyane, onde procura revelar a bondade de Deus nos ministérios: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Comissão Justiça e Paz (CJP), Pastoral Carcerária, Comissão Lux Mundi da Prelazia do Marajó, assessoria à Pastoral da Juventude e apoio às Comunidades Eclesiais na cidade e no interior dos rios marajoaras.