Vigésimo Sexto Domingo do Tempo Comum – Jane Dwyer, SNDdeN

19 de outubro de 2025

Lucas 18: 1-8

O Evangelho de hoje parece ter sido escrito especialmente para nós na realidade que hoje enfrentamos.  A Comunidade de Lucas coloca esta parábola logo depois do texto que começa a descrever o que deveria acontecer na vinda e revelação do Filho do Homem, um tempo cheio de incertezas, medo, sumiço de pessoas, realidades cruéis sem lei e sem segurança. Logo depois desta descrição pavorosa, a comunidade de Lucas na pessoa de Jesus, conta a parábola da viúva, pobre e injustiçada, mas também corajosa, resistente e destemida.  Durante muito tempo ela vem exigindo que o juiz da sua cidade fizesse a justiça para ela contra o seu adversário.  Na cultura judaica, a viúva é para ser respeitada, protegida e defendida.  Ela pertence ao grupo de vulneráveis para quem Deus exige uma proteção e tratamento especial.  Mas este juiz não temia a Deus e não respeitava ninguém.  Durante muito tempo o juiz ignorava a presença e o pedido da viúva.  Mas ela não desistia na sua procura pela justiça.  Voltava sempre apesar do mal trato e ignorância, sempre a fim da justiça. E sempre o juiz não atendia a viúva, considerando-a um incomodo infeliz e uma presença indesejável. Mas, um dia o juiz resolve atender a viúva.  Ele atende, não porque é o trabalho e papel dele na sociedade, não porque ele reconhecia o direito dela, e sim porque ela estava o incomodando e ele temia uma agressão mais forte.  E Jesus, terminando de contar a parábola questiona: “E Deus não fará justiça a seus escolhidos e suas escolhidas que clamam a ele dia e noite? A resposta de Jesus é sim.  Deus fará justiça, mas “quando o Filho do Homem vier, encontrará a fé sobre a terra?” Com esta pergunta, Jesus orienta nossa compreensão e reflexão sobre a parábola da viúva.  Jesus nos chama a aprofundar nossa compreensão do verdadeiro sentido da oração.  Ele introduz a parábola falando da necessidade de rezar sempre e nunca desanimar. A palavra “ORAÇÂO” em português é feita de duas palavras:  orar e ação.  Orar somente com palavra e clamor, rezar sem agir em favor da justiça não é orar.  Orar só de palavras não tem efeito magico e instantâneo.  Orar é sim compreender bem a realidade e situação em que se vive, ponderar esta realidade com Deus e a comunidade e depois agir em favor de mudar a situação injusta e desumana.

É um trabalho árduo de reflexão pessoal e comunitária a fim de fazer aparecer e crescer o projeto de Deus na terra, o projeto de justiça, solidariedade, fraternidade e acima de tudo a defesa incansável das vulneráveis, dos excluídos(as), das oprimidas(os) e marginalizados(as).  O pedido da viúva é de fazer justiça e assim ajeitar a vida pessoal e social dela e outros e outras como ela. O papel do juiz, tanto faz a sua crença ou falta de crença, é zelar por este projeto defendendo a justiça verdadeira, a justiça que não cede ao dinheiro, a ameaça, a pressão interesseira. O trabalho do juiz tem um propósito social: tornar a sociedade e o mundo mais justos, solidários e inclusivos. A razão pela qual o juiz atendeu a viúva é interessante e frequentemente revela a lógica da “justiça institucionalizada” no enfrentamento de problemas emergentes, especialmente os problemas dos pobres, marginalizados e excluídos… quando essas pessoas conseguem até mesmo ir ao gabinete do juiz. O juiz decidiu atender a viúva para evitar uma possível agressão por parte dela. De onde vem tal justificativa? Quais são os poderes de uma viúva para atacar um juiz, e dos pobres para ameaçar e atacar um juiz?

Então, como devemos entender essa “fé na terra” de que Jesus fala? Orar sempre, no sentido em que Jesus fala, é uma questão cósmica, social e pessoal, uma questão que toca todas as realidades que existem neste mundo. Essa oração é um clamor pessoal e social para criar um mundo mais justo, solidário e fraterno para todos, um mundo que acolhe e defende os vulneráveis! É uma oração que exige ação corajosa e constante. Exige uma fé sem medida e sem limites. Isso é fé na terra: participar da criação contínua de um mundo diferente, justo e solidário, um mundo onde possamos ver e dizer, junto com nosso Criador: “Que tudo é muito bom”.

Quem são as viúvas entre nós que precisam de justiça? Quem são os juízes responsáveis por defender essa justiça? Quem é responsável por defender a fé na terra: fé em quem, em quê, por quem e por quê?

 

 

Lucas 18: 1-8

Então Jesus contou aos seus discípulos uma parábola, para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar.  Ele disse: “Em certa cidade havia um juiz que não temia a Deus nem se importava com os homens. 3E havia naquela cidade uma viúva que se dirigia continuamente a ele, suplicando-lhe: ‘Faze-me justiça contra o meu adversário’.

 “Por algum tempo ele se recusou. Mas finalmente disse a si mesmo: ‘Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, 5esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha mais me importunar’”.

E o Senhor continuou: “Ouçam o que diz o juiz injusto. Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite? Continuará fazendo-os esperar?  Eu lhes digo: Ele lhes fará justiça, e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?”

 

Conheça a Irmã Jane Dwyer, SNDdeN

A Irmã Jane Dwyer é uma Irmã de Notre Dame de Namur que nasceu em Brighton, MA em 15 de junho de 1940. Ela se mudou para o Havaí quando tinha 6 anos de idade. Ela fez sua primeira comunhão na Paróquia Star of the Sea, Honolulu, Havaí, onde conheceu SNDs de Massachusetts. Mais tarde, a família retornou para a Pensilvânia e Jane se formou em Notre Dame, Moylan, PA em 1958. Ela foi para Penn State e estudou em Strasbourg, França durante seu último ano. Ela entrou para as Irmãs de Notre Dame em 8 de setembro de 1963, no mesmo dia em que participou da marcha “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King em Washington, DC. A Irmã Jane está no Brasil desde 20 de janeiro de 1972. Ela percebe que as pessoas que vivem na pobreza no Brasil lhe ensinaram muito. Em sua reflexão, ela fala de sua experiência concreta de viver e ministrar com e entre as pessoas. Ela reconhece sua gratidão à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur pelo privilégio de sua Missão durante mais de 50 anos no Brasil.